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Lost? Perdidos nas Vielas do Ser
Não sei quantos têm assistido a série Lost, que está sendo exibida pela Globo. Como fascinado que sou por uma boa trama de suspense, desde as primeiras chamadas já fiquei ansioso para ver se a coisa era mesmo tão boa como parecia ser. 

A série na sua primeira temporada conta a história de 46 sobreviventes de um acidente aéreo de um vôo que deixou a Austrália em direção aos Estados Unidos e acabou caindo em uma ilha remota onde coisas muito estranhas acontecem. Não me decepcionei. Lost tem uma história tão boa que você não tem coragem de sair pra pegar refrigerante na geladeira. É instigante. Viciante até. Desde o primeiro epísódio que deu origem à série até agora( já quase 10 episódios), não perdi um. 

As histórias vividas pelos personagens são tão envolventes que é impossível não se identificar com eles. Durante toda a narrativa do dia-a-dia dos sobreviventes(que precisam lutar por comida, água e segurança), acontecem "flashbacks" das vidas conturbadas de cada um dos personagens e suas histórias complexas antes de embarcarem no avião. 

Lost significa perdido e é impressionante como esta série tem me feito enxergar algumas realidades. Um bando de gente perdida numa ilha deserta e misteriosa, onde fenômenos pra lá de inexplicáveis acontecem. Um lugar cheio de perguntas sem resposta e habitada por um suposto monstro que nunca aparece "tete-a-tete" com ninguém, mas está sempre perseguindo um dos sobreviventes desavisados, fazendo com que alguns sobreviventes deixem de ser sobreviventes! 

Em Lost percebo que podemos estar mais "perdidos por dentro" do que por fora. A primeira opção é a menos drástica talvez. Isso porque quando não nos encontramos perdidos por dentro, nenhuma saída externa é demasiada difícil. Mas quando se está "perdido por dentro", as externalidades se tornam exageradamente complexas. 

Percebo também em Lost que os maiores monstros de um homem e de uma mulher habitam o interior. 

Outra percepção minha nesta série é que os maiores mistérios se encontram nas vielas do ser. Nas histórias que ninguém conhece. Nos pecados não confessados. Nas vicitudes encobertas. Nos amores não assumidos. Nos ódios encalacrados nos porões da alma... 

Nos "flashbacks" que revelam as mazelas e des-mazelas, histórias e anti-histórias desses "heróis" e "anti-heróis", vemos um médico frustrado porque nunca conseguiu ser forte o suficiente na concepção de seu pai já morto. Pesa-lhe o peso do fracasso de nunca ter sido bom o bastante para agradar o perfeccionismo doentio do pai. E antiteticamente a isso, Jack Shepard tem que assumir a liderança do grupo de sobreviventes. Todo mundo o acha forte. Ele se acha um fraco. Todos o vêem como um líder natural. Ele se vê como um fracassado. 

Há um cara iraquiano chamado Sayid, com cara de terrorista responsável pela queda do avião, mas com a doçura de um parisiense, que convive com as lembranças de quando era soldado da Guarda Republicana Iraquiana e das atrocidades que teve que cometer, das torturas que teve que infligir. Um cara procurando paz. 

Há um músico chamado Charlie, um rapaz muito legal e carismático, mas viciado em drogas. O sujeito passa o tempo todo no seu embate de consumir a droga e esconder de todo mundo e a recordação de como o vício havia destruído sua relação com o próprio irmão, vocalista da banda, e acabado com a própria banda, aquilo que ele mais amava. 

Michael e Walter Dawson. Pai e filho lutando na ilha mais para se entenderem e vencerem as mágoas da distância e da indiferença do que para viverem naquele lugar inóspito. Separado da esposa, Michael fora fora banido da vida do filho. (Durante mais de 8 anos, nem a correspondência do pai era entregue ao filho). Michael, mal conhecendo o próprio filho, um artista fracassado, se vê obrigado a assumir a guarda do garoto após a morte da ex-esposa, vitimada por uma doença fulminante. Há uma mágoa efervescente no coração de Walter, e um desejo frenético de Michael de conquistar o amor do filho( arriscando a pele em algumas situações para parecer um super-herói ao filho) e provar-lhe que sua ausência como pai não foi uma opção.Os dois tem muita coisa a conversar e acertar durante a série. Há muita coisa pra ser expurgada. 

Ainda me chama a atenção um casal de coreanos: Sun Kwon e Jin-Soo Kwon. Nos "insights" do casal vemos uma jovem rica que se casou com um simples copeiro do pai por causa de sua dignidade. Era um príncipe encantado disfarçado de plebeu na sua concepção. De repente ela descobre que o marido havia se tornado um assassino de aluguel para seu próprio pai, a fim de pagar o seu dote. Nos "insights" do marido, vemos um cara puro que "vendeu a alma ao diabo" para realizar o sonho de sua vida que era fazer a mulher orgulhar-se dele. Preso pelas teias do maquiavelismo que já não o deixava nem mais mirar-se no espelho.

Kate é uma jovem doce e inteligente, mas que esconde um passado aparentemente barra-pesada... Não se desenrolou direito ainda a história dela. 

Sawyer é trambiqueiro de primeira. Aos 8 anos de idade, vira a mãe ser seduzida por um canalha que através dela extorquiu todo o dinheiro da família. O marido traído e empobrecido pelo golpe mata a esposa e se mata, deixando o garoto órfão. Este jura acertar as contas com o responsável por essa desgraça toda quando crescer. Mas aos 19 anos de idade, pressionado por uma dívida, rouba uma mulher casada e rica. Reproduz o exemplo do homem que mais repudiava. Torna-se refém do mal que quisera destruir. Marcado pela culpa, passa a querer ser o cara mais detestável da ilha. Em busca da própria identidade... 

Já John Locke é um sujeito estranho e misterioso, cheio de artimanhas e uma capacidade natural de sobrevivência. Uma mistura de Rambo com MacGyver. Um homem forte por fora, que encara até o monstro de frente, mas que em suas lembranças, percebe-se que esse "cara durão" esconde a frustração das rejeições amorosas e do descrédito dos colegas e da própria família. 

Os irmãos Bo e Shannon, apesar de não irmãos legítimos, mas criados a vida toda como irmãos, trazem as recordações de uma relação incestuosa e proibida. A culpa que paira sobre Bo é tamanha, que mesmo sendo apaixonado pela irmã, há um momento em que pensando ele que ela havia sido morta pelo monstro, confessa a Locke que a sua sensação havia sido de alívio pela morte de Shannon. 

Realmente um bando de gente que precisa ser encontrada nessa ilha, mas que precisa se encontrar neste planeta que é o próprio ser. Gente que antes de ser achada precisa se achar! Gente que antes de organizar uma força tarefa para descobrir e matar o monstro misterioso, precisa derrotar seus próprios monstros; que antes de descobrir os segredos ocultos da ilha, precisa revelar os seus, para que receba a cura; que antes de navegar em algum navio salva-vidas, precisa mergulhar nos seus próprios mares existenciais ? de águas turvas! 

A maior desgraça da ilha é que ela não é habitada por um só monstro, mas por muitos. Invisíveis. Eis alguns deles: culpa, frustração, vício, medo, auto-piedade, rejeição, mágoa, ódio, perfeicionismo, sofisma e abandono. 

Assim como os sobreviventes de Lost, muitos de nós estamos perdidos em alguma área da vida; necessitando se encontrar e ser encontrado por alguém cuja mão forte pode nos acudir; muitos de nós temos também os nossos monstros interiores. Descobri-los e derrotá-los é o segredo pra gente se encontrar nessa misteriosa jornada que é o nosso próprio ser! 


Yeshua Shalom! 

Paulo
21/02/06


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