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Michael Jackson - O Homem que Caminhava na Lua
Refletindo sobre Michael Jackson ? O Homem que Caminhava na Lua

Cheguei a Curitiba hoje pela manhã, e ali mesmo, no saguão, enquanto esperava a Família Cunha, amigos-e-anjos que virian me buscar, ouvi pelos corredores uma sucessão de canções de Michael Jackson. Ontem eu passara o dia todo correndo atrás de meu novo livro em parceria com reverendo Adilson Costa, cujo título é "Vislumbrando Novos Horizontes para Ser e Ter". A editora ficara de entregar-me pelo menos uma quantia mínima para que eu trouxesse nesta segunda viagem à Capital Ecológica neste ano. Tal qual pai na sala de espera, aguardando ansioso a enfermeira trazer o bebezinho, e colocar-me nos braços, estive completamente desligado da TV. Apaixonado por futebol, enquanto acabava de aprontar as malas e colocar os novos livros nelas,vi uns poucos lances de Brasil x África do Sul pela Copa das Confederações e depois, silêncio, a não ser o ruído das buzinas no longo congestionamento que enfrentei, quase a ponto de perder o horário. Caíra uma chuva torrencial sobre a Cidade Maravilhosa, deixando o trânsito caótico, sobretudo na saída da Ilha do Governador, onde moro.

Sra Cunha recepcionou-me com uma frase chocante: "Michael Jackson se foi, mas nós estamos vivos graças a Deus!" Ou sei lá. Acho que foi isso que ela falou! Ter ouvido que o meu "ídolo" da infância e da adolescência havia morrido ontem, deixou-me absurdificado, perplexo, afinal de contas, existem algumas pessoas que parecem que nunca vão morrer. 

Parecia brincadeira dela,aliás, fi-la repetir umas cinco vezes que aquilo não era uma brincadeira, recebendo a notícia com a mesma incredulidade e impacto com que recebi a notícia da morte de Ayrton Senna em 94, e junto com a galera do vôlei, chorei na época. Sim, soou como a mesma "bomba", e senti o coração ficar mais miudinho do que quando anunciaram a morte de alguns dos meus próprios parentes.

Confesso, fiquei e estou arrasado! Quebrado! Esfrangalhado por dentro! Não me envergonho de dizer, nem me encho de exacerbada máscara religiosa. Sei que isso é "meio" loucura confessar, como pregador do Evangelho que sou, e como um estudioso das relações humanas e da psicologia, afinal de contas Michael Jackson pra psicologia era um desajustado e um "cara" com baixa auto-estima e com extrema dificuldade de auto-aceitação; pra sociologia seria um sociopata com extremo carisma, mas ainda um sociopata; e pra "religião evangélica" ele era um "cantor do mundo", e um imoral, um doidivanas, um "pedófilo", um pecador. A religião quereria vê-lo queimando no inferno com chapéu, luva branca e tudo. 

Eu já sempre olhei pra Jackson diferente. Sempre o olhei como uma alma atormentada e perplexa; um ser vagando entre dois mundos; um homem tentando escapar de monstros perversos, mas sempre se vendo acuado e devorado por eles. Senão vejamos se a própria música dele não revelava essas coisas, posto que o alter-ego do artista se revela através de suas obras. 

Penso que em Music in Me Michael tentava viver sarado apesar de seus traumas e dores. Há muito tempo se crê que a música é terapêutica e o astro pop tentava encontrar sinfonia no coração. Tentava fazer a sua música exterior inundar o seu interior com perdão, alegria, esperança e paz. Era como se ele dissesse ao seu mundo interior que a música "dele" poderia ser música "nele", com todas as suas belezas, levezas, sinfonias e sensações.

Em Thriller ele tentou exorcizar seus monstros cantando-os, dançando-os, ridicularizando-os, tornando-se aliados, pois veja: os monstros que tentam agarrar-lhe o pé no início do clip e fazer-lhe mal, tornam-se seus companheiros de break no final. Parece que nesse disco que é o maior fenômeno fonográfico de todos os tempos, Michael tentava conviver pacificamente com seus monstros, fantasmas e assombrações (aquela história de "se não pode vencê-los,junte-se a eles). Monstros dos traumas e abusos os mais horrorosos vividos na infância, os quais, não exorcizados, já na maturidade ele tentava vencer dormindo com vários garotos na mesma cama. Talvez houvesse ali muito mais o garoto assustado,aterrorizado, como aqueles que têm medo de raios e trovões e precisam de companhia, do que o "canalha molestador".

Black or White e a decisão de ficar branco, pra mim (com vitiligo ou sem vitiligo, quem realmente sabe?), era muito mais o desejo de não ser quem era existencialmente do que racialmente. Ora, se um garoto passa a infância toda sendo abusado sexualmente pelo pai e empresário artístico, não seria ininteligível psicologicamente que ele quisesse ser outro. Conheço moças que foram abusadas e depois do abuso passaram a paranoicamente tomar dezenas de banhos por dia para tentarem se "limpar" do abuso. Sim, é verdade, mas a maior das verdades é que por mais que elas tomem milhares de banhos, irão continuar se sentindo sujas, invadidas, enojadas porque se lava o exterior e até mesmo as cavidades íntimas, mas a alma continua emporcalhada pela dor do trauma. Michael Jackson, penso eu, pode ter ido mais longe. A ele poderia não bastar o lavar a pele, mas trocá-la ? a pele tocada, abusada, violentada ? como alguns animais vivenciam como processo natural. Se for assim, Jackson não ficou branco porque tinha uma doença ou porque não queria mais ser negro. Sua mudança de pele seria a necessidade de uma mudança radical na existencialidade, algo muito mais metafísico do que a simples pigmentação da pele. Todavia, se assim fosse, foi em vão, pois embora a pele seja o maior órgão do corpo humano e detentora de milhões de sensores os quais recebem estímulos através de toques e sensações e transmitem essas informações que decodificadas pelo cérebro, se transformam em prazer e dores, nela não reside a alma. E onde há problema de alma, nenhuma despigmentação da pele, ou mesmo transplantes ou mutilações podem resolver. 

Bad pode ter sido o seu momento "hamletiano", aquela coisa do "ser ou não ser, eis a questão", afinal de contas ele era bom ou mau? Será que os seus monstros não o haviam transformado em um monstro? Senão vejamos. Todo "monstro" foi de alguma forma, transformado em monstro por ser vítima de alguma monstruosidade. O vampiro é assim, por exemplo. Só é vampiro aquele que provou da mordida de outro. Mas o extremo que existe é que, por um lado, todo "monstro" foi alvo de monstruosidades, nem todos que foram alvos de monstruosidades se tornaram "monstros". Alguns, seja por graça divina, seja por força de vontade, seja por maior capacidade psíquica de metabolizar os dramas da vida, são imunes. Eu simplesmente não conheço um estuprador que não tenha sido estuprado, mas conheço alguns estuprados que não se tornaram estupradores. E em todo ser, mesmo o mais pérfido, fala a consciência, que é o tribunal divino posto no homem, mesmo que este não queira. A consciência é o remanescente divino no homem pós-queda. Bad pode sim, ter sido a reflexão de Michael a respeito da malignidade que passara a possuí-lo, dominá-lo, e que muito provavelmente ele não queria, mas não conseguia vencer. 

Duas outras fases na vida do astro pop parecem também de alguma forma, decifrar este ícone indecifrável. Li e ouvi a vida toda que Michael Jackson era um mistério. Hoje ouvi de um sem número de pessoas as mais cultas e capacitadas a mesma afirmação. Seria eu muito arrogante de querer discerni-lo então, embora tenha em mim o Espírito de Deus, o qual o conhecia muito bem, e conhece ainda, posto que nada Lhe está descoberto diante dos olhos, seja nos céus, na terra, ou embaixo dela. 

O que escrevo aqui é conjectural? Sim. Mas bem pode ser uma reflexão bastante coerente e existencial a respeito desse homem que revolucionou o mundo com sua música, sua dança e sua vida cheia de belezas, sensações, amores, altruísmos, esquisitices, escândalos e controvérsias. Pois bem! Como dizia, duas outras fases parecem querer discerni-lo:

- O seu estilo de dança revolucionário, a qual ele batiza de MoonWalk (Caminhando na Lua). Por que MoonWalk? Tantos nomes poderiam ser dados! Veja, psicologicamente falando, todo trauma não vencido tende a ser negado mais hora menos hora como desejo de aplacar a dor causada por ele. É um processo de "ignoração", às vezes consciente, às vezes inconsciente. Algo semelhante acontece com o doente terminal, que temendo a morte, e talvez ainda mais, a dor da morte, passa a negar a doença, pensando que isso aplacará suas dores e angústias. A "negação" ganha então contornos mais patológicos do que a própria patologia, a qual, se havia alguma possibilidade de cura, por mínima que fosse, se perde, pois se "não existe patologia, não se necessita de cura". E assim a morte devora!

Pois bem: depois de tentar aliar-se a seus "monstros", de tentar livrar-se deles transformando-se numa persona ( uma pessoa que não era ele) ? tudo sem sucesso; depois de se debater em crises e mais crises de "ser ou não ser"; de olhar-se no espelho, de não se reconhecer, e de meditar se era um homem bom ou um homem mau, e provavelmente alertado pela consciência, e sob as acusações dos verdugos tanto psicológicos como satânicos, ter se descoberto mau, veio a negação. Veio o "andar na lua", o "perder o contato com a realidade", o negar a realidade de posturas más e que revelavam que ele se tornara o monstro que ele repudiara e do qual fora vitimado.

- Never Land, o seu rancho, refúgio durante anos e lugar onde teria cometido algumas das maiores besteiras de sua vida, de alguma forma reflete a "negação" do que o seu eu havia se tornado, pois é uma terra encantada, a "Terra do Nunca", um lugar não real. Ali o que ele fazia "fazia sem culpas e sem pecados", pois na terra de faz-de-contas, nada é real e ninguém se machuca, mesmo quando cai sobre si uma pedra que na vida real esmagaria. Na terra-de-faz-de-contas ele poderia ser sem "ser", e fazer sem ser tão hostilizado pela própria consciência. Never Land era mais que uma "terra exterior". Tornara-se o solo do seu próprio coração! 

Never Land é também a Terra de Peter Pan, o menino que se recusa a crescer, que permanece eternamente menino. Talvez porque Michael consciente ou inconscientemente gostaria de viver irresponsável pelos seus atos como menino eterno. Talvez porque viver na "Terra do Nunca" seria mais uma forma de exorcizar seus demônios; de se sentir vencedor sobre o Capitão Gancho que traspassara seu coração a vida toda com dores, medos, inseguranças, solidões, fugas e mágoas; mais uma forma de se sentir o menino inocente que fora no passado e não o adulto molestado e molestador do presente.

Se essa minha análise tem algum sentido, se estou certo ou se estou errado (e não faço a mínima questão de estar certo. Só fiz esta reflexão como desabafo do meu próprio ser em relação a este artista que sempre despertou em mim os sentimentos mais ambíguos), talvez só saberemos quando todos os "Livros" se abrirem e as histórias e as intenções de cada coração forem desnudadas diante do Trono Branco (Ap 20.11-15). 

E fique claro: eu disse "talvez", pois não me sinto apto para definir o destino de ninguém! Aliás, admito que sempre orei por Michael, e sei que outros milhares, talvez milhões também oravam. Sempre orei para que ele encontrasse a cura e a paz que nada nem ninguém conseguiu dar a ele, pelo menos até os instantes finais da sua vida ? momentos esses os quais ninguém pode perscrutar a não ser o Deus de toda a Graça. 

Sei que ele ficará como um "Mito", um "Fenômeno", uma "Lenda", e como "Imortal" enquanto essa Terra não passar pelo fogo do Juízo. Se os Beatles e Elvis Presley não morreram, Michael muito menos, pois creio, não houve nem haverá ninguém como ele na história da música e do videoclip. Ele marcou o mundo pra sempre, ganhou o mundo, mas "o que adianta ao homem ganhar o mundo todo, se vier a perder a sua alma?" (Mt 16.26)

Falarei aqui o que já disse sobre Emilinha Borba, Papa João Paulo II e Ronald Golias e tomei "pauladas" de todos os lados: Gostaria muito de encontrar Michael Jackson no céu! Gostaria de vê-lo cantando We are the World, que ele compôs com Steve Wonder, e que ficou conhecida como o "Hino da Esperança" pros pobres do mundo todo, sobretudo as crianças! "We are the World, we are the children"... Nós somos o mundo, nós somos as crianças! E de quem é o Reino dos Céus senão das crianças?! Gostaria de vê-lo dando aquele gritinho "Ihi!Au!" nos portões da Nova Jerusalém e dançando MoonWalk diante dos eleitos e do Cordeiro. Dançando MoonWalk não para fugir da realidade e querer viver no mundo da lua, mas dançando para celebrar o Deus que o criou e pôs todo aquele talento dentro dele; dançando para celebrar Aquele que criou o homem para que este morasse no céu e não nas profundezas do inferno; dançando para celebrar Aquele que Caminha na Eternidade e no coração humano contrito e arrependido! 

Hoje, repito, é dia 26 de junho de 2009. Todos os programas só falam nele ? Michael Jackson. As definições todas dizem que ele gravitava entre divino, gênio, excêntrico, enigmático e louco. Sinceramente gostaria que ele fosse louco, pois sendo louco estaria salvo. Louco não é julgado porque não tem condições de discernir entre bem e mal... Louco é automaticamente justificado por Aquele "Louco da Cruz"...

Yeshua Shalom!
Paulo Rufino
Curitiba 26/06/2009


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