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Me sinto um peixe fora do aquário dentro da igreja...
Título:
Me sinto um peixe fora do aquário dentro da igreja...
Pergunta: 
Me converti aos 16 anos de idade, permaneci por 8 meses, na verdade nunca me converti completamente. Hoje sei que distante da presença de Deus nunca alcançarei a felicidade que almejo. Porém quando vou a igreja me sinto um peixe fora do aquário, na maioria das vezes nem tenho vontade de ir; e ao mesmo tempo sinto um chamado de Deus muito grande na minha vida. 



Como devo proceder? Cada dia que passa eu só vejo piora na minha vida, mas ao mesmo tempo sinto Deus tão perto. Cabe ressaltar que tenho me tratado com antidepressivos e calmantes já faz um mês. Tamanho meu desespero, abandonei a faculdade... coisas horriveis tem acontecido. 



Sei que Deus me chama e não consigo tomar uma atitude verdaderia e me entregar a ele de fato e de verdade, apesar de agora estar buscando ele com uma certa frequência, porque minha situação está pra mim se tornando cada vez mais desesperadora. 



MMRC
Resposta: 
Minha querida filha, graça e paz!

Lendo a sua carta me encho de amor pela tua vida, assim como não tenho dúvidas de que esse é o sentimento de Deus! Digo isso com certeza porque se te amo, esse amor não é meu, não intrinsecamente. Esse amor é derramado por Ele. Porque Ele é amor! E Ele é aquele que diz "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados que eu vos aliviarei". A religião quer o homem perfeito, o homem irrepreensível sob todos os pontos de vista, mas Jesus quer gente como você, que se diz desesperada, perdida entre decisões e deprimida. Aleluia por esse amor! 

Não é fácil te dar um conselho que não seja simplista sem saber mais da sua história. Até te peço que se for possível me escreva novamente contando mais detalhes da sua vida e da sua experiência com o Evangelho.

Lendo o que li, o que percebo em meu espírito é que há em ti uma genuína sede por Deus. O se sentir quando está na igreja como um "peixe fora d?água" pode ser uma in-adaptação sua aos ditames da igreja, posto que hoje algumas igrejas evangélicas lançam um fardo tão pesado sobre as pessoas que nem Jesus conseguiria sobreviver nelas. Aliás, Jesus seria mundano na concepção ultra-conservadora de muitos grupos cristãos! 

Bem pode ser que como você mesma disse, não tenha se convertido de verdade ainda; seja alguém que sente o chamado da graça e se sente profundamente atraída por Cristo, mas teme assumi-lo! Quem não assume a fé ou não quer assumi-la se sente peixe fora d?água na igreja. É gente como Nicodemos: admira Jesus, o ama até, mas só quer ter com ele em encontros fortuitos, escondidos, na calada da noite, quando ninguém está vendo, quando as luzes já se apagaram. Nicodemos chega pra Jesus ( Jo 3) e lhe diz: "Mestre, tenho visto que o que o Senhor faz só pode ser de Deus..." Ele reconhecera a divindade de Jesus como produto intelectual, mas apenas isso, posto que fora incapaz de assumi-lo como Deus na vivencialidade do ser! Gente "nicodêmica" se sentiria peixe fora d´água dentro da igreja. E por que digo isto? Porque Nicodemos sem sombra de dúvidas amava a Jesus, como percebo que você ama, e igualmente sentia um chamado para ser seu discípulo, assim como você, mas preferira se ocultar: preferia a glória do mundo, a opinião pública envolta em "status quo" e o não-comprometimento à glória de andar com Cristo, mesmo quando o mundo desaba ao redor!

Bem pode ser isso, e caso seja, peço a você que abra mão do que tiver que abrir e venha pra Cristo, pois que "adianta ganhar o mundo e vir a perder a sua alma?" Hoje é dia aceitável do Senhor! É dia de você tomar uma decisao! De abrir o peito pra Cristo verdadeiramente e voltar pra Ele e a Ele, lançar-se em Seus braços e re-começar a caminhada com graça e fé. E então, tenho certeza, Ele te sarará, posto que essa depressão e desespero que sentes, pode ser desespero existencial, desespero por Deus. Alma que provou o amor de Deus, como diz uma canção, é impossível conseguir viver daí por diante sem esse amor. Santo Agostinho disse certa ocasião: "Tu, ó Senhor, nos fizeste para ti: a nossa alma só encontra paz e sossego quando estiver seguro em ti". Alma que teve encontro com Deus ( e quando falo encontro, falo encontro com o amor dEle, e isso não depende tanto de nós, mas da escolha soberana dEle nos chamando) entra em colapso existencial sem Ele, mais cedo ou mais tarde! Colapso esse que se cura com entrega e fé: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo... e acharei descanso para as vossas almas, porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve"( Mt 11. 28-31). 

Mas veja, como eu disse no início, pode não ser isso! Pode não ser uma questão de decisão de sua parte, mas sim a opressão da religião que a leva a sentir-se achatada no meio da igreja: a opressão que cobra, que agrilhoa, que reprime, que enfia goela abaixo um monte de normas, de ritos e de proibidos, fazendo com que a fé não seja prazerosa, não seja de toda a alma e de todo o coração, não seja em espírito e em verdade, não seja por amor, pelo amor e pro amor, mas um conjunto de obrigações, um pacote-tipo-bomba-relógio, que dependendo da forma como você manuseia você vai pro céu ou vai pro inferno ? uma fé que se baseia mais em coação e medo do que em amor ao Senhor de nossas almas. Infelizmente, muito da fé evangélica se sublevou por essa forma encabrestadora, seja pelo desejo manipulador de quem exerce autoridade eclesiástica, seja porque há no ser humano uma "quedinha" pela tirania. Conheço pessoas que só são capazes de viver a fé e caminhar em retidão quando sob dominação. Logo, é como diz meu queridamigo Pr. Rogério Reis, de Caratinga, "há gente que precisa estar embaixo de um jugo pra se sentir livre!", outros são adeptos da cultura do engano. Já ouvi pastor-lobo dizendo que "há gente que só é feliz quando é enganada!", "gente que sente tesão pelo ?me engana que eu gosto"". Ora minha cara MMRC, este tipo de pessoa consegue ter nessa igreja encabrestadora, manipuladora e mentirosa o seu lugar de deleite, o seu paraíso, mas muita gente não consegue, e então, estar na igreja se torna um suplício, uma tortura psicológica e espiritual. Eu também me sentiria um peixe fora d?água neste meio castrador e religioso. 

O que te digo então é que caso este seja o seu dilema procure uma comunidade cristã onde você se sinta livre ? não pra pecar! veja! ? mas livre pra servir a Deus sem fardos e sem imposições. E em nome de Jesus te peço uma coisa: viva a fé por amor! Quando se ama a Deus nada na vida espiritual é um fardo, um peso, e sim, "justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rm 4,17).

Beijo gostoso no ser,

Paulo
23/05/08


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