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O Dia em que o Brasil perdeu a Copa e as Estações da Vida
Fatídico aquele dia 24 de junho de 1990. Maradona fez uma jogada genial costurando o meio de campo do Brasil e lançando Caniggia na cara do gol. O cabeludo argentino dribla Taffarel e empurra para as redes. Botei a mão na cabeça como se quisesse impedir os pensamentos de correrem na mente. Não podia ser verdade. Meu pai com uma expressão horrorizada na cara, quase de pânico, os poucos dentes da boca a mostra, a mão na barba espessa e esbranquiçada. Entreolhamo-nos e saltamos quase que juntos um no ombro do outro chorando copiosamente.

Eu era pouco mais que um adolescente. Abracei meu pai dizendo: "Nunca mais quero saber de futebol". Soluços.

E minha mãe, nenhum pouco amante do futebol, preparando o almoço na cozinha, ainda põe a cara pela cortina de chita da sala e diz com sua "baianitude" severa:

- "Dois negos bestas. Chorando por causa de um bando de homens correndo atrás de uma bola. Se vocês ganhassem pelo menos um décimo do que eles ganham!Humpf! Isto é bom pra vocês verem o que é bom pra tosse!"

Aquelas palavras foram quase como uma lápide sobre a minha paixão pelo futebol. Eu podia ter virado ali um desses caras que encontro na rua e no orkut dizendo "Odeio Futebol", "Odeio a Seleção Brasileira", "Odeio Copa do Mundo"...algo como "Odeio o Mundo porque meu mundo desabou quando o Brasil perdeu a Copa" ou "Odeio o mundo porque o mundo parece uma bola!".

Fiquei pensando que a vida é assim. Um dia a gente perde. Outro dia a gente ganha. 
Um dia a gente chora, o outro a gente ri. 

A vida é cíclica, é como cada estação. Vive-se a primavera com seu romantismo floral. Vive-se o verão com seu fogo de paixões. Vive-se o outono com suas renovações que nunca são fáceis de se viver(se reciclar é dificuldade pra todo ser humano, posto que só se recicla quem entende ou admite que precisa se reciclar, se renovar, se restaurar). E vive-se o inverno que é cada crise que pode gelar a alma ou produzir a flor da primavera da vida (afinal de contas, as flores belas que vislumbramos e cheiramos na primavera são geradas no rigor do inverno. Digo então, que pessoas belas no interior são forjadas nos invernos existenciais!)

Há tempo pra tudo! O sábio Salomão e seu Eclesiastes já diziam!

17 de julho de 1994. Naquela bola do Baggio pras estrelas eu confirmaria que valera a pena não desistir do futebol; não abrir mão da minha paixão; não sucumbir ao pessimismo, não me empedrar pela amargura, não deixar a bola passar por mim sem "acarinhá-la", mesmo sem muito jeito na minha perna-de-paulidade.

Não se pode desistir da vitória do amanhã pela derrota do ontem!

Não se pode conceber que o futuro não terá gostosas gargalhadas, porque choramos até inchar "o olho" alguma noite passada...

Não se pode engessar as esperanças de se acertar quando descobre-se que se errou!

Não se pode deixar de contemplar o belo porque a vida se nos apresentou com "cara feia".

Não se pode matar a chance de ser feliz porque alguém nos entristeceu.

Não se pode deixar de contemplar as estrelas hoje porque o céu esteve nublado e tempestuoso na noite anterior.

Eu disse acima que a vida como o futebol se ganha e se perde. Na realidade, só diante dos olhos externos. Quem sabe assimilar o fracasso torna-se o maior dos vencedores: ganha sempre! Quem consegue ver algo bom nas perdas e insucessos de ontem, acumula forças pra ver o bem de amanhã!

Yeshua Shalom!

Paulo 
21/05/2008


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