/ Crônicas e Histórias / Meu Irmão que Casou, o Toco e Eu

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Meu Irmão que Casou, o Toco e Eu
Fiquei olhando para ele ali no altar, dia 23 de dezembro deste ano de 2006, com a testa suando, gordo mas bonito, bem vestido com uma casaca preta e um sapato caprichosa e fulgurantemente engraxado, enquanto a noiva adentrava a singela mas bela igreja amparada pelo pai. 

Ali estava meu irmão caçula. O monstrenguinho preferido por minha mãe e odiado pelos outros irmãos. 

Não pude deixar de sentir um pouco de culpa relembrando o dia em que minha irmã Juliana, incumbida de cuidar dele( na época ele tinha dois anos), colocou-o sobre um palanque da cerca de balaústres tão comuns nas cidades do interior, e deixou-o cair. Ele rachou a testa. Quase morreu. Eu estava ali do lado. Era menor que minha irmã, mas lembro que mesmo em minha tenra idade meu pensamento era de conivência, de "bem-feito", "que morra", "isso Lana, legal". 

Prodigiosa minha memória. Parece que foi hoje tamanha a intensidade das sensações: o cheiro das folhas de eucalipto forrando o quintal, das grandes mangas espadas avermelhadas e o barulho da cabecinha dele se chocando contra um toco no chão. Havia no rosto da Juliana um brilho no olhar meio enigmático, meio possesso ? talvez não de um demônio espiritual, mas de um demônio de alma, daqueles que se alimentam do ódio. 

Prodigiosa a minha memória. Pareço ver agora minha mãe correndo do tanque ao ouvir o grito. Avental na cintura. Pano amarrado na cabeça e desespero no olhar ao ver o seu "neguinho" (era assim que ela o chamava) estabacado ao chão, com um filete de sangue a escorrer-lhe pela testa pueril. 

Aquele dia acho que tentamos matar nosso irmão! Não era uma tentativa de assassínio consciente. Juliana e eu éramos crianças também. Ela tinha dez anos e eu sete. 

Fiquei olhando pra ele ali no altar, dia 23 de dezembro de 2006, com a testa suando, gordo mas bonito... A criança que um dia odiamos, hoje amamos com toda a alma; que tanto amaldiçoamos, hoje abençoamos, e mais ainda, Deus abençoou. A criança que quase matamos, Deus deu vida abundante, e fez um homem que deu certo! 

O "neguinho" da testa ensangüentada, estava ali, 24 anos depois, com a testa novamente molhada, mas de suor, e de emoção. Era o Marcos que tomava Alessandra, a morena de formas bonitas e sorriso largo, beijava-lhe meio desajeitado a testa e a conduzia ao altar. 

Novamente eu estava por perto. Expectador da história. Mas não como um expectador passivo. Na época eu poderia ter estendido meus braços para amortecer sua queda, mas não o fiz. Meus braços foram usados para a morte, posto que mesmo não os usando os usei, haja vista que quem deixa de fazer o bem faz o mal, quem deixa de tentar preservar a vida, consente com a morte. Desta vez estava eu como expectador ativo. E enquanto o padre dava-lhes as recomendações finais e um banho com cruzes e águas-bentas, meus braços um dia usados para morte, eram levantados para a vida. 

Eu havia me calado diante de Juliana, lançando-lhe apenas um olhar que oscilava entre "o que você fez?" e "que bom que você fez". (Ele nem imagina isso que estou contando. Só o saberá quando ler este desabafo!) Pois bem! Os braços que se encolheram e a voz que se emudeceu um dia, agora voltavam-se para ele numa benção: 

? Que o Senhor te abençoe e te guarde Marcos - meu irmão! Que Ele faça o seu rosto resplandecer sobre ti; que Ele tenha misericórdia de ti. Que o Senhor sobre ti levante o Seu rosto e te dê a paz, hoje e sempre! Eu te amo!

Paulo
08/01/07


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