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Tropa de Elite
Tropa de Elite é um filme tão impressionante que já era discutido pelos quatro cantos do Rio de Janeiro cerca de dois meses antes de ser lançado (uma cópia pirata do filme vazou e em cada banca de camelô espalhada pela cidade já se podia ver o filme a venda, mesmo não concluído e com péssima qualidade). A pirataria vitimava mais um filme nacional, e ironicamente, um que fala do combate ao crime. 

O filme é ambientado no ano de 1997 e descreve o dia-a-dia da Tropa de Elite da PM (o BOPE ? Batalhão de Operações Policiais Especiais), uma espécie de S.W.A.T. do Rio de Janeiro, treinada com mais rigor e perícia que o exército americano ou israelense. 

No filme, Wagner Moura interpreta um capitão do BOPE (Capitão Nascimento) que quer deixar a corporação e tenta encontrar um substituto para seu posto. Paralelamente dois amigos de infância se tornam policiais ? Neto (interpretado por Caio Junqueira) e André Matias (interpretado pelo desconhecido, porém surpreendente André Ramiro). Esses dois novatos honestos e honrados na realização de suas funções entram na polícia com uma visão exacerbadamente romântica e ingênua a respeito da instituição e acabam se indignando com a corrupção existente no batalhão em que atuam. Deparam-se com um sistema parasitário onde a polícia se "nutre" do crime e onde o crime se "nutre" da omissão da polícia, seja por medo, seja por estar na "folha de pagamento" dos criminosos. Crime e polícia se temperando um no outro, se imiscuindo um no outro até o ponto de não se discernir quem-é-quem. 

O filme apesar de, ao meu modo de ver, parecer apologizar um combate maquiavélico da violência (vi gente na sala aplaudindo em coro a cabeça de um bandido sendo estourada com uma 12 por um agente do BOPE), onde tudo vale pra combater a violência, mesmo violências maiores; tudo vale pra combater o crime, mesmo quando o crime que se comete pra se combater o crime é ainda maior que o crime original. Isso faz da dita Tropa de Elite um tanto estúpida posto que a faz em nome da lei des-lei-xá-la; em nome da vida para a qual é treinada, matar sem compaixão fazendo às vezes de acusador, juiz e carrasco; e em nome do povo a quem jurara proteger, ser capaz de se voltar contra ele mesmo desde que pra isso um bandido tombe do meio da multidão. Sendo assim, violência gera mais violência e cria-se uma ciranda interminável onde a lei é sufocada até mesmo por quem deveria cumpri-la. Ora, o bandido tem sua existência pautada no descumprimento da lei, mas as forças policiais não podem se tornar bandidos em trajes oficiais. Logo já não existe mais mocinho e bandido. Todos são bandidos. Não existe a luta do bem contra o mal e sim a luta do mal contra o mal, talvez um mal maior é verdade (não posso ser hipócrita), mas mal não se vence com mal, porque mal e mal não se chocam, se misturam, "trocam as tintas" como diz um louco amigo meu. Isto porque todo mal que se usa pra reprimir o mal se torna um mal-maior. Mal não se vence com mal, se vence com bem.Não estou sendo ingênuo ou alienado pensando que alguém deva subir o morro com rosas nas mãos, não é isso que digo! O que digo é que o olho-por-olho, dente-por-dente não reprime o mal. Veja que isto estava na própria lei de Deus. Contudo, aquela lei não fora dada por Deus, penso eu, para ser cumprida, mas sim percebida como inexecutável. O olho-por-olho, dente-por-dente não era o desejo perfeito de Deus para o homem, mas sim um convite às percepções deste, de que essa lei não pode ser possível, posto que se tudo for no olho-por-olho, dente-por-dente quem subsistiria? Todos somos maus intrinsecamente. A mesma bandidicidade que habita intrinsecamente o bandido, habita o que não é. Basta que se lhe aflore! O mal não é de poucos, é de todos. Está na natureza caída! Logo, a lei desejava ser aquilo que levasse o homem à percepção de que necessitava da graça; de que a retribuição na mesma moeda precisava ser substituída por algo com mais sentido existencial, no caso o perdão. Enfim, o combate do mal precisa ser algo com real sentido existencial. Mata-se um bandido, cria-se uma legião. Sim, porque a própria forma que se utiliza para reprimir o banditismo é bandida. É causadora de mal não de bem! Logo, é uma guerra sem sentido! 

Sim, a conduta da polícia abordada pelo filme é burra, é estúpida, embora o filme seja brilhante. E brilhante porque além disso que disse, faz borbulhar ainda uma série de verdades nuas-e-cruas, sem maquiagens e sem retoques de romantismo do que é realmente a relação crime organizado-Estado-Potestades Policiais-sociedade. 

Uma dessas verdades é que a guerra quase que civil que existe nos morros do Rio e de outras metrópoles do Brasil é uma guerra alimentada pelas potestades humanas tanto quanto ou mais que pelas potestades do inferno. Há uma frase chocante diante dos embates de consciência oferecidos pela trama: "Policial honesto ou se corrompe, ou se omite, ou parte pra guerra". E uma primeira conclusão é a de que se alguém não se vende, nem se omite, é tragado pelos que exercem poder superior, sendo inclusive oferecidos como holocausto,como sacrifício em nome da "ordem" entre o poder e o poder paralelo. 
A segunda conclusão é a de que se algum que se recusa a não ser corrompido nem se calar diante do sistema e resolver partir pra guerra será achatado por ela. Essa guerra torna-se invencível posto que mais do que uma guerra com armas, é uma guerra com "caneta" de poderosos; uma guerra de "gavetas". Mostra-se no filme que os tiros que se brotam dos fuzis são conseqüência do que se faz e do que não se faz nas altas esferas do poder...mostra que os bandidos que empunham as armas são alimentados pelos que tem o poder político de fazer e não fazem, seja porque a população violentada se torna massa de manobra política, isto é, a violência precisa existir para que existam candidatos a heróis (o que faz dos violentados vítimas dispensáveis e os bandidos um mal necessário), seja porque "todos têm seu preço" e quando o dinheiro fala não existe verdade e mentira, ordem e desordem, justiça e injustiça ? toda consciência se esfacela... 

Desnuda-se também a hipocrisia das elites. "Playboyzinhos" e "patricinhas" que não vivem sem um baseado ou sem cheirar "pó" e que se prestam a questões sociais e passeatas em nome da paz! Ora, o consumo da droga alimenta o crime! Cada baseado que se aperta e cada fileira de pó que se cheira é o patrocinar do crime, é o recrutamento de um novo garoto para ser mula ou fogueteiro, é o investimento na compra de uma arma de fogo por parte dos traficantes, é o sustentador do tiroteio que explode a cabeça de uma criança ou de um pai de família inocente que sobe o morro em busca do seio da família. 

Assim como o diabo se alimenta do pó da terra, ou seja, da produção humana, do pecado, do próprio homem, o crime organizado e o mundo do narcotráfico se alimentam dos viciados. E daí não adianta trabalhar em ONG falando em tirar criança da marginalidade ou vestir camiseta branca com foto de vítima e sair pela rua com vela na mão. Manifestações hipócritas! Uma certa atriz da Globo que em todas as manifestações pró-paz (desde o movimento Viva Rio quando o Betinho ainda era vivo) sempre aparece às ruas com "cara-de-madalena-arrependida" é conhecida "chincheira". Um amigo que presta serviços à emissora confidenciou-me que essa celebridade come cocaína no café da manhã!!! Hipocrisia deslavada! Ninguém pode ser reprovado naquilo que aprova, ou será que essas pessoas elitizadas não têm noção do quanto contribuem para as mortes que se dignam a protestar? Ademais, o pior bandido é aquele que não sabe que é bandido; que se assenta em mesas suntuosas em apartamentos milionários na Barra, no Leblon, em Alphaville ou no Batel pra um bacanal tóxico do que o bandido pé-rapado. Porque um é fruto do meio, outro faz o meio! Quem mais sabe mais é culpado! Junto com grandes poderes, sejam eles políticos, econômicos ou de influência, vêm grandes responsabilidades. Assim sendo, estes são os fariseus contemporâneos. Por trás de suas ações de combate a algo que eles mesmo nutrem e às vezes são os maiores consumidores, existem motivações nefastas, e daí a coisa vai levando mais e mais a nossa sociedade para o abismo. 

Admito que saí daquela sala de cinema mexido por dentro. Satisfeito pela coragem das denúncias que foram feitas, pelo alerta que certamente lançará a sociedade e pela discussão que se intensificará a respeito do tema, posto que já há mesmo por causa da contravenção das cópias piratas. Todavia saio preocupado porque não vejo como se dissolver esse sistema possesso a não ser pelo governo teocrático, onde quem impõe a ordem não são os "homens de preto" do BOPE ou de quaisquer potestades repressivas, mas sim "homens de branco", cujas vestes foram lavadas pelo sangue do Cordeiro! E sinceramente, isso só será consideravelmente possível quando se estabelecer o reinado milenial! 

Maranata! Ora vem Senhor Jesus! 

Beijo gostoso no ser! 


Paulo
11/10/07


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